Em Foco: Calculadora da pegada de carbono de óleos lubrificantes

Cada vez mais, há um pedido crescente por parte dos utilizadores de óleos lubrificantes para que os produtores providenciem mais informação relativamente à pegada de carbono dos seus produtos, possibilitando assim uma escolha e aquisição ambientalmente mais consciente. A transparência neste tipo de métricas é importante para identificar e reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) ao longo de toda a cadeia de valor dos lubrificantes. No entanto, o facto de existirem diferentes metodologias de cálculo de pegada de carbono, pode provocar alguma variabilidade nos resultados (em inglês, Product Carbon Footprint-PCF). Para além disso, os cálculos de PCF não são necessariamente expeditos e podem ter um custo elevado, o que dificulta a generalização do cálculo nas cadeias de valor [1].

Em resposta a este problema, o comité de sustentabilidade da Associação Técnica da Indústria Europeia de Lubrificantes (ATIEL – The Technical Association of the European Lubricants Industry) e da União da Indústria Europeia de Lubrificantes (UEIL – Union of the European Lubricants’ Industry) lançou uma ferramenta para apoiar o cálculo de PCF de óleos lubrificantes, que se materializa através de uma calculadora em Excel desenhada para harmonizar e simplificar o processo.  A metodologia desenvolvida foi validada por terceiros (TÜV Rheinland) [1].

Com uma interface user-friendly e de acesso livre, a calculadora é destinada a produtores de óleos lubrificantes, podendo também ser usada por outros stakeholders. A calculadora está disponível para descarregar aqui e é acompanhada por um documento de suporte à sua utilização (“Methodology for PCF Calculations of Lubricants and other Specialities”) [2].

A ferramenta está alinhada com a metodologia da ISO 14067:2018 e do Greenhouse Gas Protocol Product Standard (GHG PPS). A uniformização do cálculo permite comparação comparabilidade entre as diferentes pegadas de carbono que venham a ser calculadas com a ferramenta.

Funcionamento da calculadora

O Comité propõe um cálculo da PCF com as fronteiras do sistema definidas como “cradle-to-(outbound)-gate”, ou seja, “do berço à porta da fábrica” tal como demonstra a Figura 1. A unidade funcional é a produção de 1 kg de lubrificante não embalado no portão de saída da fábrica (e.g., 1 kg de óleo lubrificante para automóveis não embalado (SAE 0W-20) à saída da fábrica do produto).

Figura 1: Processos do sistema em análise e fronteiras do mesmo (“cradle-to-(outbound)-gate”). Fonte: [2]

Assim, a calculadora não inclui processos como a aquisição de bens capitais, transporte e embalamento a jusante, ou seja, as emissões de âmbito 1 e 2 são consideradas e para as de âmbito 3, apenas as emissões a montante são consideradas.

No que diz respeito aos dados necessários para o cálculo da PCF, é necessário considerar os fluxos materiais ou energéticos que entram ou saem das fronteiras do sistema (denominados como fluxos elementares) e todos os fluxos de produtos, energia, resíduos e materiais que são trocados entre processos dentro da fronteira do sistema (denominados fluxos tecnológicos). Os dados necessários podem ser provenientes de fornecedores, relatórios da indústria ou mesmo de dados internos recolhidos nas instalações de produção.

Para cada produto é necessário preencher os seguintes campos na calculadora:

  • Unidade funcional;
  • Fluxo de referência (e.g. 1000 kg de produto final);
  • Critérios de corte selecionados (e.g., pelo menos 95% dos inputs energéticos têm de estar incluídos);
  • Procedimento de alocação selecionado (e.g., quando há produção de mais do que um lubrificante);
  • Período temporal para a qual a PCF é representativa (máx. 5 anos);
  • Descrição tecnológica (e.g., a mistura de óleo);
  • Geografia.

Posteriormente, os utilizadores devem introduzir os dados de emissões a montante, considerando as emissões associadas às matérias-primas, logística e embalagens. A ferramenta também permite expandir determinadas secções, se estiverem disponíveis dados mais detalhados, como o teor de carbono biogénico dos produtos.

Finalmente, devem ser introduzidas as emissões relacionadas com a mistura e o fabrico do produto. Nesta fase, os utilizadores devem registar a utilização de combustíveis e energia no fabrico e; perdas de produção e tratamento de resíduos e águas residuais.

A calculadora considera ainda o tratamento de resíduos e a reciclagem, aplicando abordagens específicas dependendo do cenário em questão. No caso de resíduos, as emissões podem ser atribuídas diretamente ao produto ou alocadas de acordo com a energia recuperada, dependendo se a recuperação de energia ocorre dentro ou fora do sistema. O mesmo princípio é aplicado à reciclagem, com as emissões sendo contabilizadas conforme o processo de reciclagem, seja ele dentro ou fora do sistema de produção do produto.

Figura 2: Fluxograma de processo ilustrativo de um fabricante de lubrificantes. Fonte: [2]

Com estas informações, é então possível obter as emissões totais de GEE, que são distinguidas por emissões de GEE fósseis, biogénicas (e.g., de biocombustíveis ou biomassa) e as resultantes da alteração direta do uso do solo, quando aplicável. Estas categorias dão aos fabricantes uma imagem clara da origem das emissões na cadeia de produção.

De forma a garantir resultados robustos, os promotores da ferramenta recomendam que seja realizada uma análise de sensibilidade. Esta pode ser feita, por exemplo, ao testar um método diferente de afetação (por exemplo, mássica vs. económica). Tal escolha metodológica poderá permitir que sejam observadas variações nos valores da pegada de carbono. Nos casos em que estas variações forem significativas, deve-se reportar o intervalo em que o resultado da PCF pode variar. Estas análises complementares asseguram que os cálculos estejam alinhados com o objetivo e âmbito definidos.

Segundo a ATIEL e a UEIL, esta calculadora apresenta-se como uma ferramenta valiosa para a indústria de óleos lubrificantes, oferecendo uma abordagem simplificada para avaliar o impacte ambiental e identificar as principais fontes de emissões de GEE na cadeia de valor [3]. Apesar de ter sido desenvolvida recentemente, ainda sem casos de estudo publicados, a sua transparência e estrutura metodológica destacam-se como promissoras para o setor.

 

 

Referências:

[1] Denton, V. (2024). ATIEL and UEIL form joint sustainability committee for green initiatives – F&L Asia. F&L Asia. Disponível em: https://www.fuelsandlubes.com/atiel-and-ueil-form-joint-sustainability-committee-for-green-initiatives/

[2] UEIL, & ATIEL. (2023). Methodology for PCF Calculations of Lubricants and other Specialities Methodology for Product Carbon Footprint Calculations for Lubricants and other Specialities Methodology for PCF Calculations of Lubricants and other Specialities. Disponível em: https://atiel.eu/wp-content/uploads/2023/10/UEIL_ATIEL_PCF-Methodology_Rev-1_20231130.pdf

[3] LUBE Media. (2024). Industry-First Certification of Methodology for Product Carbon Footprint Calculations for Lubricants, Greases and Other Specialities – Lube Media. Lube Media. Disponível em: https://www.lube-media.com/industry-news/industry-first-certification-of-methodology-for-product-carbon-footprint-calculations-for-lubricants-greases-and-other-specialities/